F for Fake

A arte da falsificação: único meio de se tornar original, hoje em dia!

Terça-feira, Maio 09, 2006

Maguinhos de todo o mundo, publicai-vos!

MBraz mandou pra lista Metareciclagem.

"Já que rolou um papo de tecnomagia, academes procêis. Jacques Ellul lhes diz":
... Nossa moderna (mbraz: para ele) adoração da técnica é um derivado dessa ancestral adoração do homem em face do caráter misterioso e maravilhoso da obra de suas mãos. Mas, não se salientou bastante que as técnicas se desenvolviam segundo dois caminhos muito diferentes. Há o caminho, concreto, do homo faber; esse ao qual estamos acostumados, que nos apresenta questões e que temos o hábito de estudar, e em seguida, há a técnica, de ordem mais ou menos espiritual, chamada magia. Isso pode parecer muito duvidoso; todavia, a magia é rigorosamente uma técnica. Essa idéia, alias, é abundantemente demonstrada por Mauss. A magia desenvolve-se simultaneamente com as outras técnicas e se apresenta como uma vontade do homem em obter certos resultados de ordem espiritual suficientemente precisos. Para alcançar este objetivo utiliza-se todo um conjunto de ritos, de fórmulas, de processos, com a característica de que, fixados de uma vez por todas, não mais variam. O formalismo é um dos aspectos da magia: formalismo, ritualismo, máscaras sempre as mesmas, idênticas técnicas de adoração, ingredientes de drogas místicas, receitas de adivinhação ... tudo isso se fixa e se transmite, pois o menor erro, uma palavra, um gesto, ameaça comprometer o equilíbrio mágico.

Há uma relação certa entre a fórmula feita e acabada e um resultado preciso.... Ora, cada meio mágico é, aos olhos de quem o emprega, o mais eficaz.

Domingo, Maio 07, 2006

Orçamento Participativo On-line

Cliquem aqui!

Learning methods

Acerte ou Erre
(Pares de premissas em busca de conclusões)


Nenhum careca necessita de pente;
Nenhum lagarto tem cabelo.

Alfinetes não são ambiciosos;
Agulhas não são alfinetes.

Algumas ostras estão caladas;
Pessoas caladas não são divertidas.

Rãs não escrevem livros;
Algumas pessoas usam tinta para escrever livros.

Certas montanhas são intranponíveis;
Todos os estilos podem ser tranponíveis.

Nenhum lagosta é insensata;
Nenuma pessoa sensata espera impossibilidades.

Nenhum fóssil pode ser em amor cruzado;
Uma ostra pode ser em amor cruzada.

Um homem prudente evita hienas;
Nenhum banqueiro é imprudente;

Nenhum sovina é altruísta;
Só os sovinas guardam cascas de ovo.

Nenhum militar escreve poesia;
Nenhum general é civil.

Todas as corujas são satisfatórias;
Certas desculpas são insatisfatórias.

Lewis Carroll

Terça-feira, Maio 02, 2006

Nunca fomos literais.

Formar frases gramaticalmente corretas é, para o indivíduo normal, a condição prévia para qualquer submissão às leis sociais. Ninguém pode ignorar a gramaticalidade; aqueles que a ignoram pertencem a instituições especiais. A unidade de uma língua é, antes de tudo, política. Não existe língua-mãe, e sim tomada de poder por uma língua dominante, que ora avança sobre uma grande frente, ora se abate simultaneamente sobre centros diversos. Podem-se conceber várias maneiras de uma língua se homogeneizar, se centralizar: a maneira republicana não é necessariamente a mesma que a real, e não é a menos dura. Mas o empreendimento científico de destacar constantes e relações constantes sempre se duplica no empreendimento político de impô-las àqueles que falam, e de transmitir palavras de ordem.

Speak white and loud
sim que admirável língua
para enquadrar
dar ordens
fixar a hora da morte no trabalho
e da pausa que arrefece...

-- Mil Platôs, vol.2, postulados da linguística.

Sexta-feira, Abril 28, 2006

Fucô.

"É que o saber não é feito para compreender, ele é feito para cortar." (FOUCAULT, 1984, p. 28)

Quinta-feira, Abril 27, 2006

Chovendo no molhado

Para ninguém esquecer, dêem uma olhada:

www.dominiopublico.gov.br

Sexta-feira, Abril 21, 2006

Sociologia e Cinema

Segue abaixo um pequeno texto que pretende condensar algumas discussões surgidas na disciplina "Sociologia e Cinema". Achei-as interessantes e, por isso, decidi postá-las aqui: se alguém quiser contribuir de alguma forma, comentando o texto, trocando textos sobre o assunto, sinta-se livre para tal, e eu ficarei agradecido:

Abordar o cinema do ponto de vista da produção é, penso eu, focalizar a atenção no trabalho colaborativo entre as muitas pessoas que estão envolvidas na produção de filmes: escritores, atores, diretor, cenógrafos, operadores de câmeras, técnicos de som, montadores-editores, diretor de fotografia, os responsáveis pela decoração dos ambientes, os “estivas” de toda espécie, lidando com a eletricidade, os deslocamentos, a construção de cenários, etc. É óbvio que eu devo ter esquecido de citar muita gente, a lista não pretende ser exaustiva, mas já dá uma dimensão da complexidade da divisão do trabalho que a confecção de um filme requer. A cooperação entre todas estas pessoas só se torna possível por intermédio de uma especialização das tarefas, das competências, e de uma série de convenções que permite o entendimento entre elas.

Algumas considerações antes de apresentar minha idéia, inspiradas pela leitura do texto de Samuel Gilmore, “Art Worlds: Developing the Interactionist Approach to Social Organization”. Segundo Gilmore, o conceito de mundo social, “social world”, foi desenvolvido pelos interacionistas para fornecer o elo entre dois níveis de análise: por um lado, o que se concentra nas condutas individuais dos atores e no significado que eles atribuem à sua ação, e o que dirige sua atenção aos agregados de relações relativamente padronizadas (“relatively stable aggregation of relations”) que surgem das interações, por outro. Em um mundo social, é a atividade cooperativa entre as pessoas que as liga umas às outras e estabelece relações significativas entre elas. O feixe de ações recíprocas surgidas dessa atividade produz um agregado de relações relativamente estável (p. 149). Um mundo social pressupõe uma divisão do trabalho que fornece a base para a rotinização das trocas entre os participantes da atividade colaborativa. As variações nas formas de agregação são explicadas a partir das variações nas redes de troca e nos processos sociais através dos quais a interação ocorre.

Um outro aspecto importante de um mundo social, ressaltado por Gilmore, é que neste o mecanismo de coordenação da atividade coletiva não fica a cargo de um quadro administrativo, mas sim de práticas comuns, convenções, que vinculam as diversas atividades interdependentes. Segundo o autor, convenções são práticas comuns (“common practice”) construídas através de acordos tácitos entre os participantes. Músicos que nunca se encontraram antes podem tocar juntos porque conhecem um certo repertório e sabem ler uma partitura, os envolvidos na produção de um filme sabem muito bem o que significa um “close”, um “plano geral”, um “travelling”, uma “panorâmica”, um “plano-seqüência”, e por aí vai. Neste sentido, aproximei aqui, não sei se indevidamente, “convenções” e “entendimentos compartilhados”. As convenções, assim como os “entendimentos compartilhados”, permitem que as trocas e a cooperação ocorram.

Se eu entendi direito esta parte do texto, Gilmore seleciona as redes de trocas e as convenções como eixos da análise que ele empreende para entender as variações no “mundo da música de concerto” (“concert music world”), p. 155. As variações nos processos de trocas artísticas e no grau de padronização a elas associado permitem falar de três “submundos” da organização dos concertos: “Midtown”, “Uptown” e “Downtown”. Midtown refere-se às grandes orquestras sinfônicas, turnês de solistas e orquestras de câmara que costumam se apresentar em grandes teatros (Lincoln Center, etc) e contam com um pessoal especializado para organizar e promover estas apresentações (“arts management and concert marketing organizations”), p. 155. Uptown refere-se aos compositores e intérpretes vinculados à universidades, que utilizam o campus como espaço de ensaios e perfomances, e contam com recursos e pessoal responsável pela organização de eventos oriundos do meio acadêmico. Por último, Downtown refere-se aos músicos amadores, que são simultaneamente compositores e intérpretes e que costumam se apresentar para pequenas audiências, em sótãos, espaços alternativos, etc., p. 155. Como se vê, estes três submundos se diferenciam pelo grau de especialização das atividades, das redes de trocas, como diz Gilmore, e pelo papel atribuído às convenções, enquanto mecanismo de coordenação entre as atividades interdependentes.

Dito isto, acho que já posso adiantar a minha idéia. Ela consiste em verificar se este esquema de análise utilizado por Gilmore para entender as variações no mundo dos concertos pode ser transposto para entender as variações no mundo do cinema. Há no cinema, entendido como um “mundo social”, “submundos” análogos aos estudados por Samuel Gilmore? Encetar uma abordagem sociológica do cinema que enfatize o grau de especialização e de padronização das atividades interdependentes pode ajudar a entender classificações comumente aceitas tais como “cinema comercial”, “cinema de arte”. Como diz Gilmore, a racionalização e a padronização requeridas pelos participantes do submundo Midtown promovem eficiência, mas acarretam perdas no que diz respeito à inovação musical. Já no Downtown, a ausência de fortes convenções, ainda que dificulte a colaboração entre os participantes, é compensada pelo virtuosismo e pela inovação. O submundo Uptown situa-se no meio-termo entre os dois submundos anteriores: os seus participantes tentam balancear eficiência, promovida pela existência de convenções, e inovação estética. A classificação acima é válida para o mundo do cinema? O que diferencia um “filme de arte” de um “filme comercial” é a importância diferenciada conferida a estas duas variáveis: eficiência e inovação estética? A relação entre os interesses estéticos dos participantes deste mundo do cinema e o grau de especialização e racionalização da produção envolvida num filme ajudam a entender a diversidade existente entre os vários estilos que constituem este mundo?


Domingo, Abril 16, 2006

"Não é o objeto que importa, mas o olho. Se o olho estiver lá, o objeto será encontrado, e se você não tiver o olho, seja qual for o objeto, você não o encontrará lá", parece que o Dostoievski disse isso lá no "Diário de um Escritor".
O olho "cria" o objeto? Não creio, o olho se apropria do objeto, "encontra-o", como diz Dostoievski, encontra-se a si mesmo neste objeto, projeta, enfim, a sua subjetividade nesse objeto. Isto implica em uma falsificação? Depende - se você é um cientista, este procedimento recebe o pomposo nome de "construção" e quem o pratica é um "construtivista", mas se você não é um cientista...
A ciência é uma falsificação, ou a falsificação é uma arte? A ciência é a arte da falsificação?